Se pela manhã eu acordasse e meus pés tocassem o chão de terra pisada, e ao olhar para o lado eu visse toda minha família dormindo no mesmo cômodo, meus filhos, meu marido, seis pessoas em apenas duas camas.
E quando eu me levantasse para ir ao banheiro encontrasse uma pia pequena de plástico, algumas escovas de dente muito usadas, um chuveiro e só.
Poderia caminhar mais um pouco e ver a cozinha com um fogão simples, uma pia pequena e uma geladeira vazia, com algumas sobras.
Como faria quando meus filhos levantassem para ir à escola e não tivesse um pãozinho cheiroso, café fresquinho e manteiga, teria eu que contar moedas e trocados para comprar alguns pães, ferver um pouco de leite e esquentar um café ralo. Justificaria as crianças que a vida é difícil e que se Deus assim quer, temos de aceitar. Afinal foi essa a pregação da noite anterior na qual o Pastor dizia que a vida é feita de sacrifícios e Deus aguarda de braços abertos àqueles que sabem baixar a cabeça e aceitar o sofrimento com resignação.
Meu companheiro, talvez se levantasse com um hálito comum e triste de quem esteve no bar da esquina durante a noite, cheiro de pinga com cigarro e olhar de dor, com resquícios da tentativa de sexo que eu posso ter lhe negado e que não lhe agradou e por isso me agrediu e depois chorei baixinho querendo acreditar que as crianças não ouviram. Penso que ele sairia xingando a todos nós, eu e seus dois filhos por estarmos vivos e presentes em meio à miséria, por precisarmos comer, viver e respirar em poucos metros quadrados.
As outras duas crianças ele nem olha, são filhos de outra união e desagrada constatar que já vivi com outra pessoa.
Ele iria trabalhar do outro lado da cidade, que fica a três conduções, duas horas de ônibus lotado, barulhento e com rostos tristes que fazem a santa rotina do dia-a-dia. Depois o mesmo aconteceria: trabalho de pedreiro, em construção de gente importante endinheirada, onde há árvores na calçada, mulheres e homens bonitos e carros que ele nem sabe pronunciar o nome seguidos de cachaça, brigas e odor forte do trabalho mal remunerado.
Eu me arrumaria, tentaria dar um jeito no cabelo, usar um perfume baratinho da revista que minha colega vende para tentar mascarar essa feiúra da pobreza. Sairia para pegar minhas duas conduções até a casa de família onde trabalho, onde tudo é espaçoso, bonito e a patroa anda sempre impecável e tem uma família linda de novela. No ônibus encontraria uma colega que trabalha e juntas iríamos reclamar da vida difícil e dos maridos. Passaria o dia nessa lida da casa, lavar, passar, esfregar, cozinhar.
Muitos verbos comuns que não sei escrever direito porque a vida me obrigou a largar a escola muito cedo e aprender a “ajudar” em casa.
Enquanto isso minhas crianças iriam para escola, alguns cabulam aula, outros dão problemas às professoras e poucos aprendem o que deveriam, estão mais perto das drogas, das más companhias.
Pensaria nisso com tristeza e me conformaria, acreditando que não há o que fazer, ao voltar para casa, ficariam resignados a uma TV que não educa.
E após mais um dia como parece que foram todos os outros de minha vida eu poderia constatar que nada mudou e antes de dormir olharia novamente para essa cena que me despertou e observaria a dor, a miséria que me cerca diariamente.
Eu desperto, olho ao meu redor e com alívio e uma certa angústia, constato que essa não é minha vida.
Antes de sair para dar minha primeira aula do dia, um pensamento não me deixa:
Educar para a transformação ou transformar para educar?
É possível?
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2 comentários:
muito cru tudo isso Pé, a realidade as vezes nem um tiquinho de poesia tem, é um trabalho bonito mas deve ter lá seus dias cinzas aonde a esperança fica lá quase apagada.
é possível se de repente nos colocarmos mais no lugar dos outros e parasse por um instante, como vc fez.
se quiser ajuda estou aqui
beijo
Menina, que chacoalhão pensar dessa forma, né? Eu acredito que é sim possível mudar, mas às vezes sinto que somos poucos fazendo muito pouco
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